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Sagrado Feminino
A nutricionista me pediu que levasse, na consulta de hoje, a comida que mais como quando sinto fome emocional. Fui pra consulta com um bolo de leite ninho com brigadeiro ao lado, com toda a estranheza de quem está acostumado a uma nutrição que analisa carboidratos, proteínas, calorias. Respiração profunda, conexão com o corpo. Fecho os olhos, ela coloca próximo ao meu nariz um pedaço do bolo. "O que esse cheiro te traz, Elis?" . O cheiro doce me traz uma lembrança daquelas que dói de saudades lembrar. Na cozinha de casa, com minha irmã e uma amiga de infância, sorrio enquanto fazemos brigadeiro. Um momento tão feliz que o coração aperta. Ela me pede pra abrir a boca e provar o pedaço. "E o gosto, Elis, pra onde te leva? ". O gostinho me leva pra época da faculdade. Amigas, filme na Tv, risada e choro livres. O coração aperta e eu não consigo segurar o choro. A vida adulta, sobretudo a maternidade, me fez só. Filhos e maridos jamais ocuparão o lugar que apenas uma amiga pode ocupar. A minha fome emocional pede colo, o doce me lembra do tempo em que eu o tinha em livre demanda. Sinto falta dos abraços, das roupas emprestadas, de conversar na cama até adormecer. De falar besteira, de ver comédia romântica mesmo quando minha preferência era x-men. De sentir o toque carinhoso das amigas em meu cabelo enquanto chorava. Me dei conta que, desde que as crianças nasceram, como brigadeiro vendo filme com amigas uma única vez. Me dei conta que, há anos, oferto o colo sem receber. Que meu contato com as amigas é, majoritariamente, virtual. E no meio da solidão, da correria, da falta que uma rede de mulheres faz, eu comia o doce pra tentar sentir um pouquinho daquele amor. Hoje entendi que preciso de colo feminino, de abraço de amiga, de energia de mulheres. Precisei chegar ao maior peso que já tive na vida pra enxergar que não basta fechar a boca. Pra entender porque as dietas nunca foram sustentáveis a longo prazo. Vi em um vídeo que o oposto de vício é conexão. É isso. Conexão. Abraço. Colo. O antídoto perfeito pra todo mal. Demorei, mas entendi que não é de dieta que preciso. É de algo muito, mas muito mais profundo. Um algo que inclui mulheres amigas ao meu redor. Juntas somos mais que fortes. Somos inteiras.
Creditos: Instagram @elisamasantosc
